Um anônimo

Trecho do livro Uma Estranha Realidade do Carlos Castaneda

Publicado em Pistas do Caminho por 1anonimo em dezembro 23, 2009

Trecho com um ótimo bate-papo entre Dom Juan e Carlos Castaneda sobre aliado e o caminho do guerreiro retirado do livro Uma Estranha Realidade.

Havia tanta coisa que eu queria perguntar, mas ele não me deu tempo de dizer nada antes de falar de novo.
— Isso me leva ao último ponto que você tem de saber a respeito de guerreiros. Um guerreiro escolhe as coisas que fazem seu mundo.
- Outro dia, quando você viu o aliado e tive de lavá-lo duas vezes, sabe o que havia de errado com você?
— Não.
— Tinha perdido seus escudos.
— Eu disse que o guerreiro escolhe as coisas que fazem seu mundo. Escolhe propositadamente, pois cada coisa que prefere é um escudo que o protege dos assaltos das forças que ele está procurando utilizar. Um guerreiro usaria seus escudos para se proteger contra seu aliado, por exemplo. Um homem comum, que é igualmente cercado daquelas forças inexplicáveis, se esquece delas, porque tem outros tipos de escudos especiais para se proteger.
Ele parou e olhou para mim com uma pergunta nos olhos. Eu não tinha entendido c que ele dissera.
— O que são esses escudos? — insisti.
— Aquilo que as pessoas fazem.
— O que é que fazem?
— Bem, olhe em volta. As pessoas estão ocupadas fazendo o que sempre fazem, São esses seus escudos. Sempre que um feiticeiro tem um encontro com alguma dessas forças inexplicáveis e inflexíveis de que falamos, sua brecha se abre, deixando-o mais suscetível à sua morte do que ele normalmente é; já lhe disse que morremos por aquela brecha; portanto, se ela estiver aberta, a gente deve estar com a vontade preparada para tapála; isto é, se a pessoa for um guerreiro. Em caso contrário, como você, então não se tem outro recurso senão utilizar as atividades da vida diária para desviar o espírito do susto do encontro e assim permitir que a brecha se feche. Você ficou zangado comigo naquele dia, em que encontrou o aliado. Enfureci-o quando fiz enguiçar seu carro e o esfriei quando o mergulhei dentro d’água. O fato de você estar com roupa ainda o esfriou mais. Ficar zangado e frio fez fechar sua brecha, e você ficou protegido, Mas nesse momento de sua vida, não pode mais usar esses escudos com tanta eficácia quanto um homem comum. Você já conhece demais a respeito das forças e agora está finalmente no limiar de sentir e agir como um guerreiro. Seus escudos não são mais seguros.
— O que devo fazer?
— Agir como um guerreiro e escolher as coisas de seu mundo. Você não pode mais se cercar de todo tipo de coisas. Digo-lhe isso muito seriamente.Agora, pela primeira vez, você não está mais seguro em seu antigo modo de vida.
— O que quer dizer, com escolher as coisas de meu mundo?
— Um guerreiro encontra aquelas, forças inexplicáveis e inflexíveis porque ele as está procurando propositadamente, e assim está sempre preparado para o encontro. Você, por outro lado, nunca está preparado. De fato, se essas forças o alcançarem, elas o pegarão de surpresa; o susto abrirá sua brecha e sua vida escapará irresistivelmente por ela. Portanto, a primeira coisa que você tem a fazer é estar preparado. Pense que o aliado vai aparecer diante de seus olhos a qualquer momento e que você deve estar pronto para ele. Encontrar um aliado não é brincadeira, e um guerreiro tem a responsabilidade de proteger sua vida. Então, se alguma dessas forças o tocar e abrir sua brecha, deve tentar propositadamente fechá-la você mesmo. Para isso, precisa ter um certo número de coisas escolhidas que lhe dêem muita paz e prazer, coisas que você possa usar propositadamente para desviar seus pensamentos de seu medo e fechar sua brecha e torná-lo sólido.
— Que tipo de coisas?
— Há anos eu lhe disse que, em sua vida diária, o guerreiro escolhe seguir o caminho com coração. É a escolha constante do caminho com coração que torna o guerreiro diferente dos homens comuns. Ele sabe que um caminho tem coração quando é um com ele, quando sente muita paz e prazer percorrendo sua extensão. As coisas que o guerreiro escolhe para fazer seus escudos são os itens do caminho com coração.
— Mas você disse que não sou um guerreiro, então como posso escolher um caminho com coração?
— Esta é a sua encruzilhada. Digamos que, antes, você não precisava realmente viver como guerreiro. Agora é diferente, você tem de se cercar das coisas de um caminho com coração e deve recusar o resto, senão morrerá no próximo encontro. Posso acrescentar que você não precisa mais pedir um encontro. Agora, um aliado pode vir a você durante seu sono; enquanto está conversando com amigos; enquanto está escrevendo.
— Há anos que venho realmente tentando viver de acordo com seus ensinamentos — disse eu. — Obviamente, não me saí bem. Como posso melhorar agora?
— Você pensa e fala demais. Deve parar de falar sozinho.
— O que quer dizer?
— Você fala sozinho demais. Não é só você que faz isso. Nós todos o fazemos. Temos conversas internas. Pense nisso. Sempre que está só, o que você faz?
— Converso comigo mesmo.
— Sobre o que conversa consigo?
— Não sei; sobre qualquer coisa, imagino.
— Vou-lhe dizer a respeito de que conversamos conosco. Conversamos sobre nosso mundo. Na verdade, conservamos nosso mundo com nossas conversas internas.
— Como o fazemos?
— Sempre que terminamos de falar conosco, o mundo está sempre como devia ser. Nós o renovamos, o animamos com vida, o mantemos com nossa conversa interna. Não só isso, mas nós também escolhemos nossos caminhos, ao conversarmos conosco. Assim, repetimos as mesmas escolhas várias vezes até o dia de nossa morte, pois ficamos repetindo a mesma conversa interna toda vida, até morrermos. Um guerreiro sabe disso e procura parar de falar. Esse é o último item que você tem de aprender, se quiser viver como guerreiro.
— Como posso deixar de conversar comigo mesmo?
— Antes de tudo, tem de usar os ouvidos para aliviarem um pouco a carga de seus olhos. Usamos os olhos para julgar o inundo desde o dia em que nascemos. Falamos com os outros e conosco, sobretudo sobre o que vemos. Um guerreiro sabe disso e escuta o mundo; escuta os sons do mundo.
Guardei minhas notas. Dom Juan riu e disse que não queria que eu fizesse uma coisa forçada, que escutar os sons do inundo tinha de ser feito harmoniosamente e com muita paciência.
— Um guerreiro sabe o que o inundo se modificará assim que ele pára de conversar consigo — disse ele — e deve estar preparado para esse abalo monumental.
— O que quer dizer, Dom Juan?
— O mundo é assim e assado, e tal e tal, só porque nos dizemos que é dessa maneira. Se pararmos de nos dizer que o mundo é tal e tal, o mundo deixará de ser tal e tal. Neste momento, não creio que você esteja pronto para esse golpe monumental, e, portanto, deve começar lentamente a desfazer o mundo.
— Não o compreendo mesmo!
— Seu problema é que confunde o mundo com o que as pessoas fazem. Ainda nisso, não é o único. Todos nós fazemos isso. As coisas que as pessoas fazem são os escudos contra as forças que nos cercam; o que fazem como pessoas nos dá conforto e nos faz sentir seguros; o que as pessoas fazem é muito importante em si, mas apenas como escudo. Nunca aprendemos que as coisas que fazemos como pessoas são apenas escudos e deixamos que elas dominem e transtornem nossas vidas. Na verdade, eu diria que, para a humanidade, aquilo que as pessoas fazem é maior e mais importante do que o próprio mundo.

— O que é que você chama de mundo?
— O mundo é tudo o que está encerrado aqui — disse ele, pisando com força no chão. — A vida, a morte, pessoas, aliados, e tudo o mais que nos cerca. O mundo é incompreensível. Nunca o compreenderemos; nunca desvendaremos seus segredos. Assim temos de tratá-lo como ele é, um simples mistério!

“Mas o homem comum não faz isso. O mundo nunca é mistério para ele e, quando ele chega à velhice, está convencido de que não tem mais nada por que viver. Um velho não esgotou o mundo. Só esgotou o que as pessoas fazem. Mas, era sua estúpida confusão, acredita que o mundo não tem mais mistérios para ele. Que preço triste para pagar por nossos escudos!”.
“Um guerreiro sabe dessa confusão e aprende a tratar as coisas direito. As coisas que as pessoas fazem não podem, de jeito nenhum, ser mais importantes do que o mundo. É assim o guerreiro trata o mundo como um mistério infindável e o que as pessoas fazem como uma imensa loucura.”

Uma resposta

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  1. Pagu disse, em dezembro 25, 2009 às 5:12 pm

    “Um guerreiro esquece tudo e se renova, não perde escudos e cria novos”, quanto mais estudamos e aprendemos mais caóticamente a vida se torna, sendo guerreiros ou não nunca deixamos de ser homens comuns com sentimentos simples.


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